sexta-feira, 9 de março de 2012

Someday

O quarto parecia tão vazio. Era como se todos os móveis tivessem sido retirados, vazio. As paredes pareciam tão brancas e a cama não tinha colchão. O chão empoeirado pela ausência de qualquer pessoa. Sentado em um canto, abraçando os joelhos e remoendo o passado. O whisky de repente era a coisa mais doce que poderia existir. Seus olhos ardiam e simplesmente não poderiam deixar de arder.
De repente uma epifania. Foda-se aquela vadia, pensou. Quebrou a garrafa na parede, só para feri-la, queria deixá-la pior do que ele estava. Olhou ao redor novamente, o quarto não estava vazio. Na verdade os únicos objetos que faltavam eram as roupas dela espalhadas, seus cosméticos, sua escova de dentes no banheiro e é claro, ela. Não tinha vontade de deitar na própria cama, embora de solteiro ela tivera servido melhor do que uma de casal. Isso era evidenciado pelo cheiro dela. Percebera que todo este tempo fitava algo no travesseiro. Um fio longo, longo e avermelhado. Falsa vadia ruiva, eu sei que ela não era ruiva...
Gostaria de ter o poder de queimar as coisas com os olhos. Poderia ver ir embora então aquela evidência, evidência de poucas horas atrás. Não, não foram poucas horas atrás. Foram meses, meses em que ele não sabia mais se tinha corpo próprio, tão colados permaneciam. Ela não ficava úmida. Toda ela era constantemente úmida, sempre derretendo ao seu toque, sempre beijando-o como se quisesse sorver a sua alma.
Pegou o travesseiro e o atirou longe. Viu-a bater com a cabeça na parede e escorregar, meio zonza. Puxou-a pelos cabelos, tinha vontade de arrancá-los todos. Virou-a para si e encheu seu rosto de tapas. Já não mais ouvia os gritos, as lágrimas. Apenas se deliciava com sua ruiva falsa virando uma máscara de sangue. Ria encolerizado, tome isso sua vadia.
E só restou o enchimento do travesseiro. Bobo, olhou ao redor para a bagunça que fizera, procurou por mais whisky, droga até isso ela me roubou. Estava magoado, pensava em voltar a fumar, mas a verdade é que ela tinha sido boa o bastante para fazê-lo esquecer do vício. Boa o bastante para fazê-lo viciar nela. Decidiu se render, chega. Estou na pior, continuarei na pior. Só iria melhorar se ela voltasse.
Saiu trombando pela porta. Inebriado, com a garrafa quebrada em mãos. Parecia um louco, por sorte era uma da manhã e não havia ninguém nas ruas. Vazio, vazio como o quarto, vazio como o coração. Chegou à casa dela, escancarando a porta. Parou e vislumbrou-a, sem pensar cravou a garrafa, sentiu-a quebrar e cortar suas mãos.
Viu-a quebrar na lápide. Viu-se quebrar por dentro. Mas estranhamente não queria recolher os pedaços.
Não mais. 

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